“A pior coisa que um homem pode fazer por uma mulher é se apaixonar por ela”.

Dentre os sentimentos que mais derretem cérebros e quebram corações, a paixão está entre as primeiras, sempre. Ela causa amor, causa desilusão, causa esperança, causa decepção a paixão é a selva do ser humano, é a parte irracional da mente e o lado inconseqüente do peito.

A paixão exige o afogamento em si, a insegurança no próprio taco e a falta de discernimento. Só assim ela irá te pegar pelas bolas – no seus casos, pela buceta – e te jogar na sarjeta. A paixão é boa, mas é cruel. Nos mantém vivos o suficiente para queremos morrer depois.

Certa vez defini assim o amor: “O amor não traz plenitude, não devolve a harmonia. Amor não traz paz nem traz distração. Se busca por isso, deve-se ter alguém que não te ame ao teu lado. Amor machuca, confunde, arde e consome. Amor não se ausenta, não se cala, não permite a distância. Errado quem pensa que amor é deixar ir. Amor requer presença, mesmo que apenas do lado de dentro e não ao lado. Deixar ir é ser covarde, assim como aprisionar é acovardar-se. Amar permite a ausência mas não a inexistência. Amar tolera a concessão mas não a omissão”.

Isso tudo é em decorrência de uma avassaladora paixão (clichê necessário). Mas não qualquer uma, tem de ser aquela que alimenta o amor, que vira seu combustível renovável, seu oxigênio em meio às chamas. Aquela cujo qual o amor sem ela vira algo fraterno, quase idealizado, praticamente platônico. Aquelas paixões raras, não essas que acontecem por projeções de carência e duram uma semana. Se você coleciona paixões, se mantém apaixonada por vários ao mesmo tempo, nenhum deles é realmente especial. Apenas se apaixona pela necessidade de sentir a paixão. E isso é apenas a carência gritando por alguém. Qualquer alguém.

E nisso entramos, de fato, na frase de abertura deste texto. Já a repeti uma centena de vezes e a repetirei outras tantas centenas iguais. Só não se assuste, não estou repudiando a paixão, tampouco pregando o desapego. Apenas estou dizendo que um homem apaixonado pode ser um grande problema para ele e para a mulher alvo da paixão. Talvez por ser fácil de acontecer – mais do que você imagina -, a paixão tende a causar reações diferentes na mesma pessoa. Uma paixão poderá deixá-lo mais sensível e propenso a se jogar, enquanto outra te fará se retrair e se fechar por medo. Nos dois casos, haverá uma pressão mútua por uma mudança de postura. Deixará de ser gostoso, virará obsessão, perderá qualquer discernimento sobre a realidade.

Apenas uma verdadeira e real paixão se manterá viva mesmo quando transformada em amor e isso terá o dom de realocar conceitos. E é como me encontro hoje. Com um conceito totalmente realocado e remanejado. Hoje não posso usar a referida frase com toda veemência habitual. Pois não estou a aplicando com essa ênfase de ser algo errado. Hoje, me manter apaixonado por uma mulher tem sido a melhor coisa que posso fazer por ela. E por mim. E para isso, precisei reaprender a me reapaixonar por ela e por mim.

É descobrir beleza nas pequenas coisas recebidas, sem confundi-las com migalhas. Enxergar com clareza sem que o ciúme e a possessão camuflem os sinais. É você querer se ver melhor apenas para conseguir estar presente no outro. É saber que o machucará ao seguir se machucando. É compreender que o outro não é a razão da sua felicidade, mas ele a transforma em uma coisa muito mais gostosa de sentir.

Não vira muleta e não se faz manco para manter o outro perto. É uma paixão menos opressora, mais permissiva. Ela entende e se faz entender. Ela te faz abdicar de outras paixões sem que se sinta mal por isso. É algo bonito e que apenas os envolvidos tem elementos para compreender, assimilar e aceitar. É aquilo que faz o amor se manter sorrindo e vivo e respirando.

Você se conecta ao outro, acessa o outro de forma mais intensa, forte e real, sem projeções ou questionamentos. Você não consegue se afastar, você não quer o afastamento. Algo te puxa te volta, te mantém vivo no outro e o mantém vivo em você. Você apenas quer e se sente querido.

Talvez eu seja apenas mais um idiota apaixonado falando de amor. Talvez. E justamente por isso não tenha saído um texto coerente, de certa forma. Mas certamente você vai lembrar de alguém ao ler isso tudo. E uma lágrima vai brotar nos olhos, mesmo que não caia. Um choro pela saudade, pela ausência física. Mas é também um choro bom, por saber que consegue sentir isso por alguém ainda. E se sorrir ao se lembrar e chorar, é sinal de que sua paixão é boa.

Então: já se reapaixonou hoje? Está esperando o que? Às vezes, do outro lado, tem alguém tentando o mesmo que você! Só saberá se permitir a inconseqüência e mandar um foda-se pro mundo. O mundo não tem os elementos que você tem.

Ainda há magia, ainda é algo mágico esse lance idiota de se apaixonar.